sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Prólogo

Eu realmente aprecio banhos longos, apesar de que nem sempre tenho paciência para estes. Mas considero-os muito relaxantes, principalmente nas longas e quentes tardes do verão e como hoje é um destes tais dias cá estou eu desfrutando de meu chuveiro com aguas fortes que me fazem feliz a cada vez que se encontram com meu corpo. Pode parecer um prazer juvenil, porém é algo que me deixa em estado de êxtase quase que total. Atrevo-me a passar a esponja por todo meu corpo sem medo de que alguém repare no fato de estar sentindo prazer ao fazê-lo, vejo a espuma escorrer tão ligeira por meu corpo, devido ao auxilio da agua, enquanto penso sobre o longo dia de trabalho que tive e o quão estressante este foi. Certas vezes, esfrego com força desnecessária só para sentir o quão forte posso ser o que na verdade é apenas uma autoafirmação sem muito sentido.
O banho finalmente chega ao fim, não que essa seja a melhor afirmação que já fiz.
Em meio a estes prazerosos cinquenta e cinco minutos quase me esqueci de quem sou. Pois bem, meu nome é Gustavo e resido em uma rua bem calma, de uma cidade ainda mais calma, de um estado nem tão calmo assim e um país muito menos. Estou falando de Flores do Leste, localizada no famoso estado de São Paulo e claro, no Brasil. Minha tal cidade que na verdade mais se parece com uma vila, devido à seus menos de onze mil habitantes nunca se deparou com algo mais terrível que um assalto a mercearia do “tio João” – digo “tio” porque é como todos o chamam – e certa vez que uma tal menina desapareceu, mas na minha opinião ela apenas foi esperta o suficiente para fugir enquanto fosse possível, mas isto nem vem ao caso.
Neste momento, deitado em minha bela cama de casal – bela, já que me orgulho e muito de não ter mais que me espremer na pequenina para solteiro – feita de uma madeira que fazia barulhos estranhos quando se mexia muito, talvez fosse pelo fato de não ser a mais nova das camas. Olhava para todos os cantos buscam algo sobre o que pensar, via a janela de cor branca e nada se passava lá fora, girava os olhos até o espelho do grande guarda-roupa preto que meu avô tinha me comprado alguns anos antes de morrer e olhe que isso fazia uns bons anos. As paredes e o teto pastel não se viam muito bem perto deste grande artefato negro e robusto que roubava quase todo o espaço que o quarto um dia já sonhou em ter. A pequena escrivaninha a direita – lado oposto do guarda-roupa – estava como sempre cheia de papeis e com o velho computador jogado em cima desta, agora que ninguém mais o utilizava depois que compramos os notebooks.
Era um fim de tarde bem triste, pelo menos pra mim. O sol estava quase sumindo, mas ainda reluzia forte pela janela que não tinha cortinas, estas me faziam espirrar. Logo a noite chegaria e enfim, talvez, eu teria alguma diversão. Resolvi ligar a TV e ver se encontrava algo que me animasse o que realmente me parecia bem improvável. A
programação era a mesma de sempre, devido ao fato de não ter dinheiro para pagar a assinatura da TV a cabo, mas nada que realmente me incomode. Desliguei a bendita e decidi que talvez fosse uma boa ideia da uma volta pelo quarteirão, afinal, não tinha mais nada o que fazer.
Em questão de segundos estava de frente a minha casa, esta não era muito grande, mas bem aconchegante e por estranho que pareça muito alegre. Talvez a tonalidade de azul bebê que a reveste por fora seja realmente um atrativo de coisas boas, como minha avó costumava dizer. Ela era uma velha grande – e quando digo grande, é para os lados – mas muito sábia e vivia a me dar conselhos, os quais eu quase sempre ignorava.
Comecei então minha caminhada pela rua larga onde morava. Larga, pois era a avenida principal de Flores do Leste, enquanto o resto não era mais que vielas e ruas que mal cabiam um único carro. Apesar de estar situado bem ao centro da cidade, o local era tão pacato quanto o resto, havia poucos comércios e só se via algumas crianças brincando na rua. Claro, o resto dela estava dentro de casa jogando no computador ou em seus ferozes vídeo games, algo que eu realmente nunca tinha experimentado já que não pertenciam a minha época. Lembro-me quando era feliz brincando na rua com meus amigos, não que o fosse do tipo atlético que sempre fora o primeiro a ser escolhido para os times de futebol, mas era realmente divertido e estávamos todos juntos e rindo. Hoje, cada criança esta em sua casa com o Headphone e berrando sozinho no microfone para que seu coleguinha atire no monstro que esta prestes a comer seus destroços. Isto me parecia extremamente excitante e ao mesmo tempo estranho; estão brincando juntos, porém cada um em sua casa. Talvez um dia chegue a experimentar tais emoções, mas primeiro preciso de dinheiro e meu emprego não é do tipo que poderia fornecer-me esse privilégio.
Continuo a perambular pelas ruas, ao virar a primeira esquina já me deparei com uma mais estreita, mas o nível das casas permaneceu o mesmo. Todas eram baixas e pequenas, ninguém na cidade era exatamente rico que pudesse construir algum tipo de palácio para mostrar-se melhor que os outros, com exceção do Sr. Continelli, que diziam ser um homem de muita idade vindo de algum lugar da Europa, na verdade nunca se quer o vi pelas ruas da pequena cidade, apenas alguns olhares para seu conjunto de salas que fazia parte do caminho para meu serviço e era bem maior do que a cidade permitia. Este ocupava quase um quarteirão só pra si e era todo branco, com algumas pilastras que no meu vago conhecimento parecia ser algo como romano, não posso dizer com certeza. Mas as casas ao meu redor eram todas bonitas a seu tipo; pequenas e elegantes, com famílias felizes e crianças barulhentas.
O sol já estava prestes a se despedir quando terminei meu passeio, estava logo à entrada de minha casa. Morar sozinho é o sonho de todo garoto de vinte e tantos anos como eu, mas não é o sonho mais feliz de todo quando você o vive. Sim, tenho meus
vinte e três anos completos a três meses e alguns dias e estar aqui sozinho muitas vezes me deprime, isso sem contar o fato de ter que fazer tudo por mim mesmo. Acho que cozinhar é a tarefa mais agradável que tenho em casa, por sempre poder escolher exatamente o que quero apreciar. Não sou o melhor chefe de cozinha do mundo, mas estes três anos que passei solitário me ensinaram a fazer certas coisas, o resto dos afazeres domésticos realmente me cansa demais, principalmente quando necessito de lavar minhas roupas.
Adentro a cozinha e logo penso em tomar uma boa xícara de café, já que este é meu drink predileto. Começo os preparativos do tal, bem forte e doce, é assim que gosto. Tudo em mãos e coloco logo na cafeteira, acho que este foi o artigo mais valioso que comprei depois da morte de meus pais, não entendo o fato de minha mãe gostar de fazê-lo como a moda antiga sendo que o utensilio era tão mais prático. Claro que não obtinha o mesmo gosto, mas eu me contentava com o atual, este era suficientemente bom para meu paladar nem um pouco refinado. Alguns minutos depois e lá estava eu sentado à mesinha de canto desfrutando o começo da noite, olhando para a antiga geladeira a qual me fazia sofrer com as contas de luz; consumia tanta energia que eu nem podia acreditar que era possível, pelo menos foi o que me foi dito na ultima vez em que fui reclamar sobre o valor na empresa. Mas como não tinha como comprar uma nova, tinha que aceitar o preço de tê-la, afinal era melhor que não ter algo tão importante em nossa vida, ou não.
Finalmente a lua estava brilhante e solitária no céu escuro, exatamente as vinte duas e treze, pelo menos este foi o horário o qual olhei para meu companheiro de pulso. Finalmente era hora de começar a pensar no que faria esta noite, afinal era sábado e como todo garoto de minha idade precisava sair para clarear as ideias, pelo menos uma vez por semana. Resolvi discar para Hugo, um antigo amigo do colegial que adorava uma boa noitada e muitos canecos de chope, ele com certeza seria a melhor companhia para esta noite tranquila, necessitava de um pouco de barulho.
Procurei por meu velho celular que estava jogado nos montes de roupa do meu quarto, ele com certeza estaria ali devido à falta de uso. Passei um tempo observando a lista de contatos até me dar conta de que Hugo realmente seria o escolhido.
Então disquei.
Depois de uns belos quatro toques soou a voz de fundo “Alô!”. Ele não me parecia surpreso ao ver meu nome em plena noite de sábado.
“Eae, cara. Beleza?” Eu disse no tom mais amigável que seria capaz de soar.
“Beleza sim e ae?” Ele retribuiu a pergunta,
“Tudo de boa, mas deixe eu te falar, quais os planos pra hoje?” Decidi que ir direto ao assunto seria a melhor solução para a conversa.
Depois de uma pequena pausa, Hugo respondeu. “Então, cara” ele já não parecia tão receptivo “eu e uns amigos estávamos pensando em dar uma passada no Esquadrão” este era um novo bar com uma temática no mínimo estranha, ele tinha vários objetos da aeronáutica, pois o dono era um senhorzinho ex-piloto de caça e apaixonado por seu antigo serviço.
Ele não parecia estar me convidando e o lugar também não me agradava, mas definitivamente não ficaria trancafiado em casa mais um fim de semana, sendo que a passada eu estava doente e tive que ficar de repouso. Então disparei “Ótimo, e a que horas estarão lá?”. Não era muito agradável o fato de me convidar, mas eu realmente necessitava do ar noturno.
Outra pausa, essa um pouco maior, ele receoso disse “Não sei” sua voz tremula, ele estava mentindo. Porém depois de uma pausa de vários segundos ele soltou “Tenho que falar com o pessoal, mas provavelmente lá pela meia noite”. Percebi que estava muito arrependido de ter me dito, Hugo realmente gostava de mim, mas não era algo compartilhado por todos seus amigos, porém eu realmente não me importava com o fato.
Pretendendo sair a qualquer maneira, logo confirmei “Okay, estarei à porta do bar a este horário, não se atrasem.” Sabia que não seria o ambiente mais agradável devido ao fato de não ser bem vindo, mas não havia discussão. Eu iria a este bar e com estes meus “grandes amantes” e me divertiria.
Lembrei que já havia tomado banho e não repetiria esta ação, sendo que tinham se passado poucas horas. Concentrei-me em arrumar algumas roupas, estava vestido quase que com roupas de dormir, já que estas eram as que usava pra ficar em casa. Míseros dez minutos se passaram e já estava totalmente arrumado. Usando uma calça jeans surrada, não que ela fosse velha, mas era bem usada, uma camisa xadrez azul e preta que me fazia lembrar aqueles peões de rodeio, mas eu gostava – não do rodeio, mas a camisa era bem vista – e a usava com frequência quando queria me agradar e meu tênis adidas branco, aquele convencional, bem gasto devido ao longo tempo de uso, porém o amava. Assim era como decidi sair e logo fui para a cozinha, sabia que seria bom encher a barriga com algo antes de sair. Nesses bares sempre pedimos várias porções, mas nada que realmente sacie a fome de alguém e como eu pretendia terminar a noite bêbado, não podia sair sem comer.
Abri a geladeira para procurar por algo comestível e ali estava a lasanha que tinha feito ontem, não havia muito, mas nada que um pouco de arroz não completasse um bom prato. Juntei os dois mantimentos em um prato e logo coloquei no micro-ondas, este era um artigo que eu realmente achava muito interessante e bem prático, por sinal.
Um ligeiro minuto se passou e lá estava eu sentado novamente a mesa de canto deliciando com o prato, não era algo enorme, mas sabia que serviria para manter meu estomago ocupado pelo resto da noite. E claro um copo cheio até a boca de Coca-Cola, que era minha segunda bebida predileta.
Comi tão lentamente que quando estava terminando de lavar a louça, percebi que faltavam apenas vinte minutos para a meia noite e como o bar não era tão perto de casa, para que teria de ir a pé, é claro, teria que sair o mais breve possível. Voltei ao banheiro para escovar os dentes, aquele local todo branco às vezes me cegava, mas eu gostava de estar ali.
Dentes escovados, roupas arrumadas e alimentado. Eu estava pronto para sair.
Sai andando na direção do bar, via as ruas já escuras, iluminadas apenas pelas lâmpadas amarelas dos postes, o que tornava a cidade muito mais bonita, pelo menos para mim. As crianças já não estavam mais nas ruas, é claro, e poucos carros passavam, isso era muito agradável, me lembra de que quando voltasse de minha noitada as chances de ser atropelado eram mínimas.
Pouco tempo depois estava na porta do estabelecimento, era todo cinza e com poucos detalhes a não ser pelo grande emblema escrito “ESQUADRÃO da força aérea brasileira” e o desenho de um jato, era muito bonito, mas não me vinha a calhar como o tema de um bar. Olhei para os lados e nada de Hugo e seus amigos, decidi que entrar seria a melhor ideia. Lá estavam eles, sentados em uma grande mesa, havia seis pessoas nesta e outras vinte pelo resto do local. As pessoas eram todas conhecidas, como sabia que seria, estavam com Hugo três homens e duas mulheres as quais conhecia de longa data. Os homens eram Jorge, o magro e alto de cabelos bem vermelhos, estes me lembravam do fogo, fogo no qual ele arderia um dia. A seu lado estava Felipe, um tipo mais ameno, mas não mais interessante, ele tinha os cabelos bem pretos e era muito pequeno. Olhando mais a direita vi Billy, este de nome incomum, não sabia nem se era realmente seu nome, era muito forte e de cabelos raspados, me parecia o tipo de pessoa sem nenhum tipo de ideia, mas não o conhecia então preferi não tirar muitas conclusões. A primeira garota que avistei estava de mãos dadas com Billy e era sua namorada, Susana, ela me lembrava o tipo líder de torcida dos filmes americanos, era loira e corpulenta, mas muito baixa para meu gosto. A outra me fez respirar fundo, era Stephany, a garota pela qual fui apaixonado nos tempos de colégio, não tinha mais aquela paixão jovem, mas ela ainda era bela demais para que pudesse olha-la nos olhos. Stephany era pouco mais baixa que eu e tinha longos cabelos negros, estava com um vestido curtíssimo o qual percebia que ela adorava, mostrando suas lindas pernas e realçava seus seios, que não eram tão grandes como os de Susana, mas ainda assim muitíssimo vistosos.
Decidi que era hora de aproximar-me da mesa, eles ainda não tinham me notado quando cuspi um “Olá” que fora realmente bem recebido apenas por Hugo, enquanto a mesa ficou calada. Poderia ouvir até ouvis aos grilos chiando do lado de fora do bar se não fosse pelo restante das pessoas fazendo barulho e o som ambiente que era uma mistura rock com sertanejo, não sei bem o que era, nunca fui muito apegado a musica. Esqueci-me de todo o barulho do local ao fitar novamente Stephany, mas isso durou muito pouco devido ao fato de ela perceber e me soltar um sorriso, bem amarelo, por sinal. Não sabia onde enfiar meu rosto, provavelmente estava muito corado a este momento, sendo branco como sou pego cor mais fácil que o normal. Devolvi o sorriso pensando que talvez tivesse um ataque cardíaco daqui a poucos segundos, mas isso não ocorreu. Hugo logo tratou de cortar o momento percebendo o que estava acontecendo.
Hugo me abraçou e disse “Tudo bem, amigo?” em um tom que perceptivelmente não era tão alegre como ele queria que fosse.
“Estou ótimo e vocês?” Confrontei aos outros, tentando olhar o mínimo possível para ela.
Todos balançaram suas cabeças com um movimento de afirmação e alguns conseguiram soltar uns sorrisos tão falsos como as peças de aeronaves presas nas paredes. Apenas Hugo dirigiu-me a palavra “Estamos muito bem. Peça algo para beber.”.
Essa foi realmente a melhor ideia que ele teve em anos, logo chamei o garçom e pedi uma dose de gim e uma agua tônica, à moda inglesa de beber drinks fortes, acho que este seria o melhor drink para começar a noite, é forte e não leva muito o gosto de álcool a boca. A velocidade com que o garoto voltou com minha bebida foi impressionante, quase que decidi parabeniza-lo, devido ao fato de o local estar tão cheio, mas decidi que não deveria interagir demais.
O tempo foi passando, os drinks chegando e eu, claro, me abrindo. Não só eu, mas todos na mesa, até mesmo Jorge o qual mostrava descaradamente que não suportava minha presença por perto, nesse momento estava falando comigo e rindo. Então o único problema passou a ser Stephany, a bela morena de pele clara como neve me fazia tremer a cada movimento que ao menos se mostrasse que fosse a minha direção. Quando ela declarou que iria ao banheiro e chamou a Susana como companhia, quase tive outro ataque e pensei que possivelmente morreria esta noite.
Ela se levantou e com isso mostrou suas pelas coxas tão bem torneadas que luziam em meus olhos. Meu coração parou, foi este meu sentimento, eu não conseguia nem mesmo respirar e estava claro que era meu fim, mas pensei que seria uma boa despedida, já que estava a olhar para o mais belo par de pernas que já havia visto em minha vida. De repente senti a pressão em minhas costas, veio como um jato direto
em meu corpo tão frágil e tirou-me daquele momento o qual tinha construído. Era a gigantesca mão de Billy e ele estava falando comigo e rindo muito, mas não tinha concentração suficiente para ouvi-lo, ainda.
Tomei um pouco de ar e um belo gole de meu copo de vodka com gelo, isso foi suficiente para reatar a consciência e disse “Nossa, por favor, fale de novo, estava em outro mundo.”.
Ele continuou a rir, mais ainda que antes, segundos após o momento tão embaraçoso Billy conseguiu recitar as palavras “Ei cara, ta ligadão na Stephany hein?”
Minha cara deve ter sido de um pavor total. Os três tomaram-se de gargalhadas e eu novamente me recuperando disse “Não, cara, não.” Ele não pareceu acreditar muito em minhas palavras, então retomei. “São apenas um belo par de pernas.”.
Ainda assim não adiantou, acho que estava mais que na minha cara que eu apenas estava tentando disfarçar, mas tomara que ela não tenha percebido nada. Não sei como conseguiria viver caso Stephany soubesse de minha paixão secreta. Momentos depois a vi voltando à mesa e pensei rapidamente que deveria ir ao banheiro, nem que fosse apenas para conseguir jogar um pouco de agua em meu rosto. Então levantei-me e disse “Já volto, pessoal.”.
Eles não pararam de rir e Jorge disse “Vê se não foge, hein garotão.”.
Eu estava desesperado, sabia que ela perguntaria o porquê das risadas e eles provavelmente contariam para debochar de mim. Este era provavelmente o meu fim. Cheguei tão rápido ao banheiro que nem me vi passar pelo bar, apenas senti que alguém me observava, mas isso era bem possível perante minha expressão de desespero. Por sorte o banheiro masculino ficava ao lado oposto do feminino e não precisei cruzar com a tal garota.
Não sei exatamente quanto tempo fiquei encostado a pia do banheiro sem fazer ou pensar em algo, estava apenas pensando que seria meu fim. Eu era tímido demais para saber que uma garota como Stephany pense que sou apaixonado por ela, na verdade não sou ou pelo menos acho que não sou. Afinal, tantos anos depois, pensei que houvesse superado o platonismo do pequeno menino que vivia a espiar a bela morena pelos cantos. Recobrei minha consciência e decidi que deveria voltar. Mais alguns segundos, um pouco de agua no rosto e agora eu estava pronto, ou pelo menos pensava isso.
Moldei meu rosto o mais normal que consegui, estava um pouco bêbado o que tornou mais difícil a busca por uma cara agradável, mas sai porta a fora. Olhei para os lados e ninguém me observava, inclusive em minha mesa. Engano o meu. Bem a direita do bar havia um homem solitário, o que era bem incomum em um bar que não era conhecido
por ter bebuns, mas sim pelo grande numero de jovens intrigados em saber as estórias do velho senhor dono do local. Ele me fitava como um cachorro olha a um frango rodar na porta do açougue. Neste momento me senti mais estranho que antes, era um homem de meia idade, por volta de seus quarenta e tantos anos e não parava de me olhar. Muito baixo e magro, era mais branco que eu e com alguns cabelos grisalhos. Ele não tirou os olhos de mim desde o momento que sai do banheiro até que cheguei a minha mesa e se deu ao luxo de me dar um sorriso. Se eu fosse do tipo mais encrenqueiro já teria ido para cima do pobre senhor, acusando-o de ser uma bicha idiota. Realmente pensava que ele era uma bicha, mas não pretendia arrumar confusão, nunca fui deste tipo.
Sentei-me com meus “amigos” e retomei meu drink, todos estavam me olhando. Fingindo não saber o que se passava e realmente sem saber totalmente. Perguntei “O que foi pessoal?” com uma risada bem forçada.
Billy logo tratou de responder “Contamos a Stephany sobre sua paixão secreta por suas pernas ou por ela toda.”.
Pensei “MEU DEUS, É REALMENTE MEU FIM”.
Este foi o curto espaço de tempo que tive até Billy retomar sua fala “e parece que ela não detestou totalmente a ideia”
Meu coração voltou a disparar enquanto pensava se realmente seria possível que um dia Stephany pudesse estar comigo, digo, como homem e mulher. Só de essa ideia passar por minha cabeça deixou meu companheiro que estava em baixo da mesa mais aceso que um farol em noite de neblina. O sangue fervia em meu corpo e pulsava como se estivesse pronto a sair de mim, mas não era como as sensações anteriores, eu estava feliz.
Todo este sentimento se quebrou quando olhei para o lado e consegui enxergar ao senhor que continuara me fitando e agora como se estivesse pensando quais mil travessuras pudesse fazer comigo. Senti vontade clara de vomitar e logo voltei minha atenção para mesa, quando Stephany finalmente resolveu se pronunciar. Péssima hora.
“Ai gente, para” Meu mundo desabou. “Eu só disse que gosto de ter admiradores, acho isso muito fofo. Desde que não tentem fazer algo que não lhes é permitido.”
“Vagabunda Idiota” foi o que pensei. Ela gosta de me ter a observar, mas não me quer para o resto. VAGABUNDA MALDITA.
Olhei estranhamente para meu meio copo de vodka e resolvi que devia toma-lo todo e o fiz. Fucei em meus bolsos, era hora de ir embora, já tinha ouvido o bastante por hoje.
Enfim achei meu dinheiro e deixei uns trinta reais em cima da mesa, não consegui distinguir bem uma nota da outra, a bebida resolveu me atacar.
Rumei em direção a minha casa, previ que o caminho de volta seria mais extenso que o de vinda devido ao álcool em meu corpo. Mas não tinha problema, não tinha hora pra acordar mesmo. Olhei para meu companheiro de pulso e logo eram quatro e quarenta da manhã. O tempo voou devido à bebedeira e nem me dei conta. A rua estava assustadoramente mais vazia que quando estive vindo, mas isso não era de todo ruim, agora minha teoria de atropelamento valeria totalmente. As luzes de todas as casas já haviam se apagado e eu podia ouvir o som de pequenos animais, estar sozinho novamente me fazia muito bem.
Vi uma luz se aproximando e um barulho que acabara com meu precioso silêncio. Verei meu rosto só para averiguar e era um carro grande e prata, ele se destacava em meio a pouca luz da rua vazia. Ele vinha lentamente enquanto eu tentava apressar meus passos de garoto temeroso que era, mas o fato de não estar totalmente sóbrio não me permitiu muito. Logo o carro me alcançou e baixou a janela do passageiro.
Uma voz encantadoramente rouca me disse “Precisa de ajuda, amigo?”.
Eu estava confuso, não conseguia distinguir bem o rosto devido à escuridão da noite e o fato de continuar concentrado em andar. Fitei mais uma vez o belo carro, era um grande Mustang, algo totalmente fora dos padrões de nossa quase que aldeia. Uma luz se acendeu dentro do veiculo o que me fez olhar outra vez para tentar reconhecer o motorista. Era o homem do bar.
Novamente a voz soou em meus ouvidos “Precisa de ajuda, amigo?”.
Meus passos tornaram-se mais vagarosos, nem eu mesmo sei o porquê. Então parei e resolvi responder, não podia ser mal educado, não me ensinaram a fazer isso. “Não senhor, minha casa fica a poucas quadras daqui.” Menti.
O senhor não se mostrou surpreso e tratou de abrir a porta do veiculo. “Entra, por favor.”
Como uma onda de prazer tomando meu corpo, parei. Não sou do tipo que admira homens, alias, longe disto. Mas meu corpo e minha mente me diziam que deveria aceitar o convite. Logo parei de frente a porta.
Aquela voz tão sedutora vinda daquele homem que agora me parecia tão claro em meio à noite novamente me atacou. “Entre!” Foi o que ele exclamou.
Abaixei-me e sentei no banco do passageiro, eu estava estranhamente confortável naquele carro ou talvez em sua presença. E ele tornou a dirigir-me a palavra. “Bom garoto!” E colocou sua mão sobre meu ombro.
Eu tremia e suava como jamais teria acontecido antes, o que seria esta sensação? Estava coberto de medo e prazer, era realmente excitante.
O homem se aproximou de mim. Eu estava paralisado. Como sempre sua voz me tocou como um calmante “Qual seu nome?”.
“Gustavo” eu disse. “E o seu?” nem tinha ideia de por que estava perguntando.
Senti o som vindo de dentro de seu estomago “Chamo-me Adolf”. Eu estava em estado de relaxamento total, agora. E o homem parecia talvez mais relaxado que eu. “Boa noite.” Ele disse.
Foi quando senti uma dor extrema, meu pescoço parecia não existir mais. Senti apenas que algo havia se inserido em mim e saindo, o sangue pulsava mais que quando havia pensado na possiblidade de estar com Stephany. Foi quando tudo escureceu.